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Segundo Harriet Beecher Stower, escritora e abolucionista americana, as mulheres são as verdadeiras arquitetas da sociedade. Entender o feminismo como emulador de um pensamento progressista mais amplo é um dos grandes temas contemporâneos. As Annas dessa exposição empunham sua arte de maneira sistemática, cada qual a sua maneira, como ferramenta de denuncia de uma cultura misógina ao mesmo tempo que apontam no feminino o norte dos novos tempos. 

 

 

Anna Maria Maiollino, nascida na Itália em 1942, muda-se em 1954, devido à escassez provocada pelo pós-guerra, para Caracas, Venezuela, onde estuda na Escuela de Artes Plásticas Cristóbal Rojas entre 1958 e 1960, ano em que transfere-se para o Brasil. Geiger nascida no Rio de Janeiro em 1933, estuda arte em Nova Iorque em 1954, voltando ao Rio um ano depois. Em 1968 Maiolino se muda para a cidade americana, onde permanece por três anos.

 

O fato de estarem ligadas a efervescente cena cultural da cidade Nova Iorque dos anos 1950 e 1960, e absorverem a revolução estética causada pela Bienal “Pop” de São Paulo de 1967, é ponto chave para o inicio dessa exposição. Ambas alinham suas pesquisas a “Nova Figuração”, nome o qual foi dado a essa produção de cara Pop mas com conteudo extremamente politico que denuncia a opressão artisitica e social vivida no Brasil no final do anos 1960. 

 

 

Em uma das obras seminais de Anna Maria Maiolino, “ANNA”, de 1967, a artista se vale da estética do cordel, para compor uma imagem em que duas figuras espelhadas em formas que remetem a lápides (seus pais) enunciam o nome da artista, um palíndromo, antecipando a centralidade que as relações familiares como eixo de pertencimento teriam em sua poética; Já em “Glu… Glu… Glu…”, de 1966, uma silhueta humana é reduzida a seus órgãos digestivos a partir do tórax, uma alusão à antropofagia, à digestão como processo de transformação e ao vazio em todo ser humano que não pode ser jamais preenchido.

 

 

 “Burocracia” de Anna Bella Geiger, produzida no mesmo ano, em plena ditadura militar, questiona a função e a natureza da obra de arte no âmbito do capitalismo, refletindo sobre o poder coercivo da arte como instituição, inquirindo sobre a função, a natureza e o poder repressor do Estado brasileiro. Dentro dessa situação, para Geiger uma estratégia possível era, em primeiro lugar, problematizar os símbolos, o imaginário que justificava, do ponto de vista ideológico, o poder instituído à força com o golpe de 1964. E esse imaginário repousava em grande parte no sentimento de "brasilidade" que, desde antes do golpe de 1964, reestruturava-se pelas facções conservadoras do país e, entre elas, os militares. A obra se estrutura visualmente na figuração caricatural, onde um em grito uníssono, quatro mulheres gritam contra a misoginia, repressão e o governo.

 

 

Após esse momento, a produção das artistas se volta para a abstração, além de buscarem nas novas midias que surgiam meio para a experimentação estética. Vídeo, fotografia, gravuras, performances, tudo foi veiculo no qual colocavam suas condições pessoais - mulheres, artistas, uma imigrante e outra filha de imigrantes, nascida ou vivendo em um país periférico - para pensar criticamente, tanto as funções que a instituição arte impõe na história quanto o próprio conceito de "brasilidade", tão fundamental nas suas produções. 

 

 

Mas o ponto chave na obra das duas artistas é que são mulheres. São arquitetas de sua história e fazem parte do importante capitulo  da arte Latina como peças fundamentais da luta feminista. E com isso  anteciparam discussões e foram precursoras de uma revolução social, que a cada dia se torna mais urgente na pauta contemporânea global. 

                                                                                         Paulo Azeco

Serviço:

“ANNA”, com curadoria de Paulo Azeco
Abertura: dia 23 de novembro, sábado, das 14 às 18 horas
Período expositivo: até 20 de dezembro de 2019

Galeria Base
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Horários: de segunda a sexta, das 10 às 19; e sábados das 11 às 14 horas
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