(A)PARTE DO TODO

 

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

DE MATOS, Gregório. “O todo sem a parte não é todo"

O poeta barroco luso-brasileiro Gregório de Matos (Salvador, Bahia, 1636 – Recife, Pernambuco, 1696) faz uma reflexão fundamental nessa estrofe, ao afirmar a importância dos fragmentos, dos recortes, das partes que formam a totalidade. Essa exposição pretende dar voz aos vários retalhos que compõem o nosso acervo, mas sem abrir mão de uma seleção cuidadosa, demonstrando que várias histórias se cruzam, e podem ser agrupadas para transformarem-se num mosaico narrativo. A partir dessa concepção curatorial, se propõe pensar as paredes enquanto temáticas, de modo que cada uma estabelece um diálogo entre artistas, movimentos e momentos da história da arte brasileira, abrindo muitas discussões possíveis e relacionando trabalhos aparentemente apartados.

 

Em uma das paredes notam-se alguns trabalhos feitos a partir da técnica de gravura em madeira ou xilogravura. A estética de cordel presente nas obras do gravurista Gilvan Samico (Recife, Pernambuco, 1928 - 2013) - membro importante do Movimento Armorial, que na década de 1970 reivindicava a valorização dos saberes e práticas visuais, musicais e literárias nordestinas - interage em harmonia com dois trabalhos da multiartista Anna Maria Maiolino (Scalea, Itália, 1942). Assim como Samico, ela também foi aprendiz do importante ilustrador e gravurista Oswaldo Goeldi (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1895 - 1961). Dessa forma, ainda que partindo de contextos histórico-sociais totalmente distintos, as confluências dos trabalhos extrapolam o aspecto técnico de produção. Na mesma parede, é possível apreciar também uma obra da série “Tecelar”, de Lygia Pape (Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 1927 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004). Também foram incluídas duas obras da série “Tramas” também conhecidas como  “Papéis do Nepal”, de Antonio Dias (Campina Grande, Paraíba, 1944 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018), impressas em um papel especial de quatro camadas que fascinou o artista a ponto de fazê-lo cruzar o mundo e realizar uma viagem de mais de cinco meses em busca desse material, produzido artesanalmente em regiões longínquas do Nepal. Ambos foram artistas brasileiros de peso, e que também tiveram como referência o trabalho de Goeldi: Pape produziu um curta metragem intitulado “O Guarda-Chuva Vermelho” a partir de algumas gravuras de Goeldi, e Antonio Dias foi também seu aprendiz, de modo que todos os artistas que compõem essa parede se conectam através de um mestre da gravura em comum.

 

Há também algumas obras únicas, feitas por mulheres que, ao longo do século XX, desenvolveram práticas distintas: algumas mais políticas, outras mais formalistas. Aqui mais uma vez aparecem obras de Maiolino, como a série “Marcas da Gota” e uma da série “Cartilhas”, de modo que todas parecem trazer reflexões sobre o espaço e a forma como nos relacionamos com ele. Já nas delicadas colagens de Mira Schendel (Zurique, Suíça, 1919 – São Paulo, São Paulo, 1988) é visível um certo apresso formal pelas interações entre cores, caracteres numerais ou tipográficos e formas, revelando um certo olhar interessado da artista pelo design gráfico. Por fim, nos trabalhos de Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1933) as obras intituladas “Burocracia” e “América Latina” presentes nessa exposição possuem um tom político evidente. No primeiro caso, somos convidados a dizer, junto às mulheres representadas na pintura, a palavra “burocracia”. Esse termo, que evoca uma certa revolta diante das dificuldades burocráticas das instituições públicas brasileiras, também é uma associação feita pela artista entre o conceito de arte e de burocracia, fazendo um comentário a respeito do adestramento ideológico da arte diante da cultura política extremamente castradora e reacionária que vigorava nos anos 1970, durante a ditadura militar no país. No outro, a artista joga um jogo de aproximação visual e linguística a partir de alguns símbolos muito vivos no imaginário coletivo brasileiro.

 

A exposição também toma um outro rumo: notam-se algumas fotografias que colorem o espaço e outras em preto e branco, mas todas carregadas de simbologia associada a ritos afro-brasileiros, registrados pelos olhares de Mario Cravo Neto (Salvador, Bahia, 1947 - 2009) e Andrea Fiamenghi (São Paulo, São Paulo, 1972). Nessas fotografias executadas na Bahia, a presença de animais e de indumentária cerimonial revelam uma forma particular de se relacionar com o mundo que talvez desperte fascínio ou até estranhamento. No entanto, esses registros são uma forma de celebrar uma ancestralidade fundamental que compõe a história brasileira, e que é frequentemente marginalizada e menosprezada por pura ignorância ou intolerância. Ao fundo, uma fotografia aérea de Christian Cravo (Salvador, Bahia, 1974) feita no deserto da Namíbia, no sul do Continente africano, realiza a ponte afro-atlântica e complementa esteticamente essa seleção de fotografias, transmitindo uma sensação enigmática pelo modo como as dunas se revelam nos tons de branco e nos cinzas mais claros, ao mesmo tempo em que escondem algo nos tons de preto mais profundos.

 

Também se observam alguns trabalhos dos artistas representados pela galeria: Bruno Rios (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1989), Lucas Länder (São Paulo, São Paulo, 1984) e Luiz Martins (Machacalis, Minas Gerais, 1970) que desenvolvem suas próprias poéticas através de pesquisas formais em torno dos pigmentos, técnicas e texturas que resultam em belas composições abstratas. Bruno Rios explora os efeitos da monotipia sobre o papel mata borrão, produzindo algumas imagens em folhas de formato A3 que depois são agrupadas para formarem grandes composições. Já nas duas obras de Luiz Martins é possível notar algumas marcas formando um relevo pontilhado na pintura. Ele se utiliza de algumas ferramentas como formão, martelos de madeira e outros objetos de escultura que o auxiliam na produção desses efeitos na tela, bem como pigmentos naturais produzidos pelo próprio artista. Por fim, no trabalho do artista e designer Lucas Länder é interessante perceber como o uso da parafina gera a impressão de estarmos olhando para uma parede de azulejos que, surpreendentemente, se relacionam com o ato fotográfico de revelar uma imagem. Isso porque após pintar o papel com tinta nanquim, o artista se utiliza de  uma fina camada de parafina sobre o trabalho, de modo que em alguns pontos o líquido quente transforma os tons de preto, que ora se mostram opacos, ora extremamente vibrantes.

 

Daniel Maranhão

Curadoria e Texto

Leonardo Gimenes

Texto

Abertura: 29 JUN 2022, quarta, das 18h às 21h

Período: 30 JUN a 12 AGO de 2022

 

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