lucas länder

Imanência

O trabalho de Lucas Länder opera acerca da memória. O artista, nascido em 1984, acompanhou a transformação digital do mundo, e por consequência faz parte da população que ano após ano se torna refém de uma quantidade cada vez maior de uma produção imagética desenfreada. Na sua pesquisa, a memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento ou ainda como forma de escancarar sua percepção diante desse cenário.

 

O antropólogo Gilberto Velho afirmava que a memória é fragmentada. O sentido de identidade depende, em grande parte, da organização desses pedaços, fragmentos de fatos e episódios separados. “O passado, assim, é descontínuo.” Interessante pensar essa organização de fragmentos de memória como principal alicerce da construção da obra de Länder. Na série “Paisagens Descritivas”, que tem inicio em 2015 e que está presente nessa exposição, fica claro o anseio de organizar esse cenário de memória (real ou fictício?). O uso do carvão de maneira ágil e pulsante, emula uma vontade de transcender a paisagem e talvez dialogar com questões relacionadas à imediatismo da imagem e também a seus próprios anseios e questionamentos.

 

Na série em que ele parte de desenhos feitos sobre retratos seus, impressos em papel, ele interfere de maneira mais brusca e agressiva. Em um primeiro momento fica claro um questionamento da efemeridade da imagem, seu caráter descartável. Mas mesmo ali, há algo de pessoal, de enfrentamento da sua imagem registrada  àquela arquivada em sua memória.

 

Sua produção mais recente, especialmente aquela produzida em 2021, reflete os tempos em que vivemos. Um país devastado por uma pandemia global, um governo omisso, e uma série de desdobramentos desencadearam um conjunto de imagens ainda mais denso. A memória registrada aqui reflete esse novo cenário, e talvez o medo, agonia e a insegurança vivida se expressem na forma de pretos mais intensos, catastróficos. A ideia da paisagem é quase afastada e ele assume aqui uma imagem que beira a abstração completa, mas de tamanha potência que parece gritar a dor vivida e ainda tão recente.

 

Lucas é econômico no uso de materiais, cores e suportes. Importante ressaltar o uso da parafina em muitos dos seus trabalhos, uma alegoria ao efêmero da memória e à imanência de seu próprio desvanecimento. Sua força está em jogar com o expectador. É mostrar uma paisagem a princípio banal que surpreende numa montagem complexa, com exímio domínio de técnica e atrai o olhar que se propõe a se aprofundar com mais afinco em seu universo. Um trabalho sofisticado na intenção e resultado.

 

Paulo Azeco

Curadoria e texto

Abertura: 28 OUT 2021, quinta, das 18 às 22h

Período: 29 OUT a 04 DEZ de 2021

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