MAR

 

[...] Nhem, nhem, nhem

É onda que vai Nhem, nhem, nhem É a vida que vem Nhem, nhem, nhem É a vida que vai Nhem, nhem, nhem

Não volta ninguém [...]

Bocochê. Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966

 

Há um imaginário criado do que seria o mar, de modo a ser inúmeras vezes narrado na música, no cinema e na literatura, como na Ilíada de Homero, escrita supostamente no século VIIII a.C, ou em Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne, publicada em 1871. Esse imaginário foi também alimentado nas pinturas, expondo muitas vezes um mar revolto, como na tela do inglês William Turner, Calais, 1803, e o mestre Katsushika Hokusai, na xilogravura, A Grande Onda de Kanagawa, 1830-1833. É onda que vai, é vida que vem, não volta ninguém! O mar é a incerteza, o mistério, medo, acalanto e encanto, que atraiu o homem desde sempre, e talvez por isso ronda o imaginário das mais diversas sociedades. Por essa razão, habita vestígios de um desbravamento que se operou entre os séculos.

O mar é um território de fascinação e de um poderoso ecossistema, que muitas vezes equiparamos sinonimamente o mar e oceano, mas teoricamente, se entrecruzam e se distanciam simultaneamente. O mar, sinteticamente falando, está para uma concentração maior de continente do que propriamente de água, sendo menos profundo que oceano. E este mesmo reino habitado por um simbolismo é forjado por lutas na conquista de outros territórios, como as ditas “Grandes Navegações”, no século XV. O que marca não só uma alegoria da glorificação do desbravamento deste território, como testemunhou desde as zonas costeiras de salinas até a partida dos tumbeiros¹, onde se decantou, mais ou menos, um milhão e oitocentos mil corpos, que morreram durante a travessia pelo Atlântico, sendo este mesmo lugar que viu o voo da morte².

Este é o mesmo mar que presenciou a transformação do seu ecossistema, através de uma indústria pesqueira e de hidrocarboneto³. Contudo, é importante mencionar que ele não é apenas o mar salgado do choro, ou da necropolítica⁴, mas é a morada da mãe, a senhora dona do Ori⁵, ERÙ IYÁ, ODÓ IYÁ! Lá é a morada da mãe de todos e do sagrado, água que tem o poder de estancar a ferida e curar a alma. Lugar do encontro da pluralidade de seres e histórias, onde habitam as atargatis do oriente, as sereias da mitologia grega e os fantásticos  tesouros dos piratas. Este encontro das águas de Yemonjá, zeladora de segredos, teorias e histórias, faz emergir a série e a exposição do artista Luiz Martins.

A Exposição Mar, na Galeria Base em São Paulo, reúne uma produção que explora uma materialidade pictórica na técnica do desenho e da pintura, compostos por uma rugosidade e um gradil de formas, onde as cores transitam pelo ocre e nas escalas de preto e cinza, que dilatam conceitos etnográficos, antropológicos e políticos de um território marítimo, constituídos por uma fatura linguística e matérica, que são explorados pelo artista. E podemos perceber isso em dois momentos: O primeiro é um conjunto de tons de ocre e cor, que se desenvolve a partir de uma simultaneidade entre antropologia e a etnografia rupestre, delineado por uma grafia circular, que tenciona uma aspereza e secura de um cerrado, como se fossem gravuras em rochas. Ao mesmo tempo, sua técnica traz sutilmente uma rugosidade, que é possível entrelaçá-la aos açoites nos corpos pretos e indígenas. Já o segundo é um mar em nanquim, que emerge através da rede de pesca de um pescador numa exploração de formas e volumes. É também um mar das narrativas literárias e das músicas, lugar da beleza e da biodiversidade, que conta através do nanquim o mistério e alude o azeite negro e denso, capaz de trazer abonança e danos ao mesmo tempo. E esse é o Mar de Luiz Martins, de águas profundas, quase equiparadas as do oceano, que amalgama uma pluralidade de conceitos e poéticas, expressando outras imagéticas que não associamos quando nos referimos ao mar. Um mar que conjuntamente explora uma materialidade pictórica de diferentes concentrações salinas, como o uso do nanquim que ora se condensa, ora se espalha. Tudo isso vem pela puxada do gradil da rede, que traz o belo, a memória, o alimento e o calcário, mas também expõe o sal da história.

 

Ana Paula Lopes

¹ Denominação dos navios que transportavam os negros retirados do continente africano até o final do¹ tráfico negreiro. Mas que no Brasil durou três séculos, com seu fim em 1850, sendo o último país a decretar.

² Os militares na ditadura militar na Argentina (1976-1983) dopavam os presos considerados contraventores, inseriam em aviões e jogavam ao mar ou no Rio da Prata.

³ Aqui se faz referência ao petróleo.

⁴ Aqui se faz uma referência ao filósofo e intelectual Achille Mbembe e ao seu livro Necropolítica

publicado pela N-1 edições.

⁵ Em yorubá, ori significa cabeça.

 

 

Abertura: 11 DEZ 2021, sábado, das 12h às 17h

Período: 14 DEZ a 05 FEV de 2022

 

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