MARIO CRAVO NETO

DE EXU A JESUS CRISTO.

 

Uma exposição de Mario Cravo Neto nunca será apenas uma exposição. Em todo o seu percurso o artista sempre deslisou sobre existências, por dentro e por fora das suas fotografias, por dentro e por fora dos seus experimentos. Portanto, uma exposição com suas imagens será sempre um livro aberto: página por páginapoderá mudar a cada instante. Mesmo para quem já tenha visto grande parte da sua obra, aquelas que são “possíveis” de ver no primeiro instante. Possíveis de ver porque haverá sempre, em todas elas, um segredo por dentro do outro. É neste exato momento que o homemdespe os sentidos: dependendo do olhar de quem vê, enxergar será sempre umararidade. Principalmente neste mundo-agora onde cegamos cada vez mais, um minuto atrás do outro. Todos os retratos do artista que aqui estão formam um exercício para o próximo, para o que virá a seguir. Trata-se de um jogo entre interior - exterior preciso, sem rasuras, sem imposições, livre para os olhos do observador que espia a imagem completa de “alguém”como se estivesse olhando para si mesmo. Este, o destino do artista: o abismo. E com isso, a nudes. 

Homens e mulheres na pele de si mesmos, diante do olho de vidro de outro homem que os guarda por dentro da câmera entre símbolos do profano e do sagrado, joias, planta, peixe, aço, pedra, lona. De Exu a Jesus Cristo. Do falo-pó-de-pemba à face encantada. Pronto: ou o espectador chega a um mundo de horizontes ou será melhor desistir. Uma fotografia de Mario Cravo Neto é como a tela de um cinema. Cada uma delas possui palavras, enredos, sinônimos, devaneios, loucura, ômegas, tratados, carne em chamas, sol adentro. É neste labirinto que ele protege um segredo por dentro do outro: a garganta das coisas que alivia, espreme, arde, dói, faz silêncio, grita. Depois, vem o amanhecer. Não estamos apenas diante de uma série de imagens de um homem que partiu muito cedo porque teve sua Orí interrompida, naquele dia 9 de agosto de 2009. Estamos diante de um homem que iluminou a menina dos próprios olhos para deixar para “os outros”, ele mesmo, um segredo por dentro do gozo.

 

DIÓGENES MOURA

Escritor | Curador de Fotografia | Editor