Sandra Cinto

Sandra Regina Cinto (Santo André, São Paulo, 1968). Desenhista, pintora, escultora, gravadora e professora. Faz do desenho o fio condutor de sua obra, mas transita entre diferentes modalidades de produção artística, como a instalação e a escultura. Em muitos de seus trabalhos, os espectadores adentram espaços que estimulam a reflexão sobre o ambiente ao redor e como ele é ocupado.

Forma-se em educação artística nas Faculdades Integradas Teresa d'Ávila (Fatea), em Santo André, São Paulo, em 1990. No ano seguinte, expõe no Laboratório de Estudos e Criação da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pina_). Em 1992, realiza suas duas primeiras exposições individuais, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), em São Paulo, e na Galeria Espaço Alternativo, no Rio de Janeiro.

Para os críticos Raphaela Platow e Adriano Pedrosa (1965), o desenho é a linguagem essencial de Sandra Cinto, que trabalha também com a pintura, a escultura e a instalação. Usado como rascunho em seus primeiros trabalhos, como Retábulo(1995), no qual pinta nuvens em superfícies de madeira, o desenho torna-se, em obras posteriores, forma final. Como ilustradora, faz seu primeiro trabalho em 1996, para a Folha de S.Paulo.

No ano de 1997, recebe o Prêmio Aquisição no Salão de Arte Contemporânea Victor Meirelles e participa da Feira Internacional de Arte Contemporânea, em Madri. A partir de 1998, leciona desenho de expressão na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e coordena, com o artista Albano Afonso (1964), o grupo de estudos do Ateliê Fidalga, em São Paulo.

Como artista residente, fica por seis meses na Cité des Arts, em Paris, no ano 2000. Cinco anos depois, recebe o prêmio residência da Civitella Foundation, em Umbertide, Itália. Desde 1990, faz diversas exposições coletivas e individuais, como Mam na Oca (2006), Construção (2006) e A Imitação da Água (2010).

As dimensões das paisagens se alteram entre as obras de Sandra. Nuvens pintadas em suportes de pequeno e médio porte são substituídas por grandes céus noturnos e mares agitados, feitos com caneta esferográfica nas paredes de museus e galerias, como ocorre na obra Encontro das Águas (2013). Os desenhos são minuciosos e exigem o uso de diferentes canetas, além de um tempo longo de produção.

Há também nas obras uma função arquitetônica: os desenhos convidam o público a imergir na paisagem, remetendo ao sublime e a imagens da natureza que geram sensações de vertigem e medo. Os murais se contrapõem ao ambiente, gerando paisagens oníricas em meio ao espaço urbano. A crítica Angélica de Moraes (1949), para quem a obra de Sandra lembra criações do pintor Guignard (1896-1962), vê nos trabalhos dela a evocação de um “universo do sonho e da utopia”. 

Com os desenhos, Sandra expõe fotografias, cavalos de madeira, camas e outros itens. Esses objetos constituem um ambiente imaginativo, além de funcionarem como suportes para os desenhos, que cumprem o papel de “tecido conectivo entre os elementos”. O traço da artista, delicado e simples, revela influência do desenho japonês. Em 2011, ela confirma essa influência nipônica em um projeto para o Sesc Santo André, denominado Céu e mar para presente (Japonismo). Nele, aplica azulejos serigrafados às paredes que ficam ao redor de uma piscina. Para além das questões visuais, a filosofia se faz presente, por meio do zen, do vazio e da necessidade de valorizar o tempo.

Livros são outros elementos constantes nas obras de Sandra Cinto, mas, na maioria das vezes, aparecem fechados e como parte das instalações. Um exemplo disso é a obra En Silencio II (2014), na qual um escritório evoca o vazio do espaço criativo enfrentado pelo trabalhador. Empilhados sobre uma mesa, os livros se tornam suportes para um violoncelo, cercados por partituras inacabadas. No mesmo ano, a artista cria Partitura, instalação que exibe pela primeira vez livros abertos.

Como ocorre na obra En Silencio II, a ausência da figura humana é marcante na produção da artista. Segundo ela, o fator humano é contemplado pela presença dos espectadores e sua ocupação do espaço expositivo, em convergência com a obra.

Em 2017, Sandra cria a instalação imersiva Biblioteca do Amor [Library of Love], no Contemporary Arts Center (CAC), em Cincinnati, Estados Unidos. O projeto coletivo leva ao público cerca de 200 livros-objetos, frutos da reflexão de artistas, consagrados e iniciantes, que pensam o amor em suas diferentes manifestações, considerando também sua ausência. O projeto se realiza em uma sala de leitura, na qual biblioteca e instalação artística convergem na chamada Sala de Contemplação.

O espaço na área de convivência do CAC é criado com o objetivo de ampliar a reflexão. Configura-se como uma ação coletiva de observar as relações humanas propostas pelos livros dos artistas, em um ambiente de trânsito constante.

Ao criar contraposições entre as obras e o ambiente que as cerca, Sandra gera atmosferas de sonho e utopia. Os desenhos e instalações levam o público a espaços de meditação e reflexão sobre a ordem do tempo e das relações ao seu redor.

Fonte: Itaú Cultural